8 de setembro de 2018

disco rígido



não digo tudo o que penso.
não escrevo tudo o que sinto.
não lembro de tudo o que sonho.

tanta coisa habita as madrugadas
tantos pensamentos
dentro dos pensamentos.

ao acordar,
um fiapo de noite espeta os olhos

e os sonhos desprendem-se
das pálpebras

quase nunca
minha mão acompanha
a velocidade dos pensamentos

eles não se prendem
às pontas dos dedos
nem às pontas da língua

vão além da concretude
não precisam fazer sentido

prefiro as perguntas.




(imagem: Man in a Bowler Hat, de Magritte)

7 de setembro de 2018

o retorno de Saturno



ao tropeçarmos em nossas esquinas,
encontramos algumas verdades.
sempre há algo além do fim das ruas,
mesmo dos becos sem saída.

a Terra não é plana
como acreditavam ser antigamente
- como muitos ainda acreditam ser -,
o que nos mantém de pé é o céu aberto,
a gravidade nos finca no chão,
os sonhos, não.

tudo isto é normal?
de perto, quem?
vivemos porque nos fazemos falta.

andamos pelas cidades
que por elas um dia andaram
quando não eram cidades

e então voltamos às esquinas,
como quem já conhece o tropeço.

sempre há algo além do fim das ruas,
mesmo quando já sabemos.

a Terra não é plana -
ou apenas esquecemos o modo
como ela curva.

o céu ainda aberto,
a gravidade ainda insiste no chão,
os sonhos ainda não.

tudo isto é normal?
de perto, quem?

fagulha


uma claridade nos acende
por dentro - dentro em nós
onde existe uma chama
que queima sem incendiar
fogo silencioso ardendo aceso
como se um vento atiçando
(rajada de força invisível)
qualquer resquício de faísca
fizesse surgir um secreto clarão
que nos iluminasse e alimentasse
e só nós pudéssemos enxergar.


(imagem: Sergio Buratto)

amplitudes



1: entre outros,
nossos nomes
(outros nomes
apenas)
rastros na vastidão
(do que somos).

2: do de dentro,
espaço do corpo
que habitamos,
quaisquer palavras
escapadas
do céu da boca
são apenas meteoritos
sobre nossas línguas.

3: carrego um tanto
de júbilo, outro de lama,
reproduzo infinitos códigos
não impressos sobre a pele,
estoque de mim mesmo
em diferentes tons,
profusão de cores,
e nunca esqueço
de que diferente do sol,
outras estrelas só podem
ser vistas quando há escuridão.


(imagem: A Lua Cheia, de Paul Klee)

palimpsesto


não esperar entender
o que não se explica

do passado que margeia
sem direção, algum vestígio

debaixo de tudo o que se sobrepõe
todas as razões já apagadas

camada por camada
antigas palavras

se desfazem a olho nu
como escrita ao sol

restam apenas
as que ainda se iluminam.

algumas luas depois



tentas ver na escuridão
o teto da noite fechado em ti

mãos que não sabem repousar
como palavras sem destino

trancamo-nos no frio
dos gestos quase imóveis

e ainda assim
o que é nosso permanece

palavras nos diários
dias sem medida
horas cinzas

histórias por escrever
como se escrever ainda fosse
possível a dois

o que sei eu da tua vida
o que sabes tu da minha

escrevemos

sem medo da queda
pois do chão não passamos.


vermelho


de repente
invento
um jeito
de te olhar
como quem
não quer nada
querendo tudo
- só para ver
se venta
numa noite
morna
como esta,
abafada,
sem razão...
quem disse
que era preciso?
se desde sempre
por aqui entre nós
não houve lógica,
que o que sentimos
não era divisão,
entre braços
intrusos,
mãos
que escorregam
à procura
de um canto
pelo corpo,
olhamos,
porque ainda
são vermelhos
os olhares
e o desejo:
boca que tu pintas
só para veres
manchar o cigarro.


(imagem: Charlotte Gainsbourg por Jean-Baptiste Mondino)

órbita



somos mais
do que o que dizemos
ou podemos ser menos -

dizer também restringe:
olhar para trás da órbita
é ver apenas um detrito
do universo inteiro
que por dentro temos.

decifra-te




ainda existirá mundo
depois de nós
mas nenhuma gota de sangue
permanece inteira

o chão de Nazca já existia
antes de qualquer intenção
humana,
antes das linhas -

incorruptível,
a natureza
não precisa
de ensinamentos

pumas caçam instintos,
lhamas seguem sem culpas
ou arrependimentos,
peixes atravessam horizontes,
pássaros voam sem filosofia,
sem invejar asas alheias

e nós, entre porquês,
buscamos sentido
onde talvez haja
apenas impulso

o tempo segue seu curso
o sol atravessa
todas as nossas vontades
de entender

leões sobre o deserto
são necessidade
em estado puro

uma multidão humana
sobre o cimento
grita, se fragmenta

as vozes se atropelam
mais que os veículos,
muitas vidas cabem
em um mesmo metro quadrado

e na tua consciência,
quando tudo silencia,
o que permanece
sem se medir
ou se comparar?


desregrar-se






só se encontra
quem se perde

andar na linha
qual um trem
é seguir

sob a possibilidade
de
descarrilar.




imagem: JMW Turner)

dos devires



nada é.
tudo está.
o corpo que habito,
as chagas, as árvores,
as fachadas das casas, das igrejas,
os lençóis sujos dos puteiros,
a saliva dos monges,
as línguas bifurcadas das cobras,
dos seres vivos à matéria inorgânica,
tudo denuncia a passagem do tempo:
existir é transmutar.


(imagem: Hundertwasser)

antimatéria



antes de tudo, escrevo

do contrário
contaria cédulas 
em um banco

chegaria em casa
jantaria
assistiria qualquer coisa
e dormiria

no outro dia
os mesmos gestos
os mesmos objetos
sendo apenas
o que são

e, enchendo-me de cotidiano,
até o limite de transbordar,
haveria o risco de em mim
caber ainda um novo hábito:

entre o céu e a terra,
enxergar apenas
o que é palpável.





(imagem: José Gurvich)

6 de setembro de 2018

inclassificável


não me defino.
ninguém pode nos definir.
nenhuma palavra
alcança-me por inteiro.
se quiserem me classificar,
que seja de inclassificável.
sou múltiplo, simples,
complicado, variável...
se tento cristalizar uma parte minha,
imediatamente uma outra me escapa.
portanto, não me resumo,
ainda que, às vezes,
goste de ir direto ao ponto.
no entanto, posso me encher de vírgulas,
afinal, quem não é cheio de entretantos?


(imagem: Violeta Parra)