a morte não nos diferencia por crenças, ideologias, cores, deseja todos igualmente para si, mortos somos todos igualmente mortos, enquanto vivos (ainda que vivos estejamos igualmente vivos enquanto ainda estamos vivos) não somos todos iguais, a vida é seletiva, a morte, não, ela não nos diferencia, diferentes são as formas de morrer, como diferentes são as formas de viver, estar vivo, ser, morto é uma forma só, vivos somos todos diferentes, o contrário do que dizem na tentativa de nos homogeneizar, e porque esperam que sejamos todos iguais é que há tantos tipos de intolerâncias que reverberam pelo mundo. os vivos estampam sortimentos, prateleirizam sentimentos, engavetam pensamentos, que a morte nos liberta de todos, dos que sobre nós mesmos temos e sobre os outros, a vida é pluralidade e, portanto, saber-se único entre tudo o que nos diferencia e também nos assemelha, mas que, ainda assim, não nos torna iguais: diversidades, oscilações, diferentes tons, sons, contratempos, contagem, sopro, chama acesa, a vida é verbo, composição, e a morte (para todos o mesmo inevitável silêncio), cinzas ou decomposição.
29 de setembro de 2018
26 de setembro de 2018
ressignificância
desprendias palavras
das pontas dos dedos,
em qualquer tom
tua língua ácida
rasgava o verbo
e os recatos
teu corpo inteiro, transparente,
a cabeça
e as extremidades
revelavam tudo
o que hoje,
sob alguma armadura,
segue em guerra dentro de ti
agora
silêncio é escudo.
24 de setembro de 2018
(im)permanência
meu corpo, a minha voz
meus tropeços, tudo em mim
será até quando,
um somar anuários
- de carne e osso
sou sujeito a durar pouco
(o que vinga a existência,
acesso ao infinito, é pedra:
em silêncio impondo sua forma,
não murcha sob - ou sem - a água)
(imagem: Paul Bond)
23 de setembro de 2018
panaceia
absorver máximas e cultivá-las
desenrijecer antigas estruturas
cá na Terra, vale até mesmo a fé
em um para-choque de caminhão
ou, se for ousar novos caminhos,
até trocar os pés pelas mãos
plantar bananeiras,
praticar infinitivos:
crer, infundir, buscar...
e, para nunca se arrepender
de não ter tentado, tentar.
desenrijecer antigas estruturas
cá na Terra, vale até mesmo a fé
em um para-choque de caminhão
ou, se for ousar novos caminhos,
até trocar os pés pelas mãos
plantar bananeiras,
praticar infinitivos:
crer, infundir, buscar...
e, para nunca se arrepender
de não ter tentado, tentar.
20 de setembro de 2018
um espelho da ignorância humana
Texto de André Nascimento Pontes,
professor de Lógica do Departamento
de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas
18 de setembro de 2018
pareidolia
assisto ao final desta manhã:
sob o mesmo céu
os mesmos galhos
dessas mesmas árvores
balançam as mesmas folhas
(presas à vida)
e enquanto um velho
que fala ao telefone
carregando rugas e sacolas
nas mãos
vai sem pressa
sei lá para onde
(uma cara de:
"Ivone, vou me atrasar
para o almoço"), penso:
nesta cidade do Sul
da América do Sul,
onde o velho e eu
dividimos o mesmo céu,
há um cavalo gigante
sobre as nossas cabeças
- sim, sou desses
que veem desenhos nas nuvens.
sob o mesmo céu
os mesmos galhos
dessas mesmas árvores
balançam as mesmas folhas
(presas à vida)
e enquanto um velho
que fala ao telefone
carregando rugas e sacolas
nas mãos
vai sem pressa
sei lá para onde
(uma cara de:
"Ivone, vou me atrasar
para o almoço"), penso:
nesta cidade do Sul
da América do Sul,
onde o velho e eu
dividimos o mesmo céu,
há um cavalo gigante
sobre as nossas cabeças
- sim, sou desses
que veem desenhos nas nuvens.
17 de setembro de 2018
rumo
não bordo com lantejoulas
as pontas dos meus pés
não penduro constelações
nas minhas extremidades
para continuar a viagem
nesta esfera rutilante
(rotunda a girar)
sob minha carne fraca
não bebo da água
de um deus do céu
nem apascento demônios
à luz dos raios das manhãs
só carrego mais ao fundo
a poeira das sujeiras
dos submundos das bagagens.
as pontas dos meus pés
não penduro constelações
nas minhas extremidades
para continuar a viagem
nesta esfera rutilante
(rotunda a girar)
sob minha carne fraca
não bebo da água
de um deus do céu
nem apascento demônios
à luz dos raios das manhãs
só carrego mais ao fundo
a poeira das sujeiras
dos submundos das bagagens.
16 de setembro de 2018
vestígios
disseram:
abandona os versos antigos.
veste palavras novas,
verbos jamais ouvidos.
mas todas as coisas
ainda trago vivas
dentro.
interessa-me
o que resiste além da matéria:
uma fotografia
livre do tempo -
em preto e branco,
em sépia
ou saturada.
como um papel antigo
que se recusa
ao engavetamento.
14 de setembro de 2018
júbilo, memória, noviciado da paixão
Tudo vive em mim. Tudo se entranha
Na minha tumultuada vida. E por isso
Não te enganas, homem, meu irmão,
Quando dizes na noite,
que só a mim me vejo.
Vendo-me a mim, a ti.
E a esses que passam
Nas manhãs, carregados de medo,
de pobreza,
O olhar aguado, todos eles em mim,
Porque o poeta é irmão
do escondido das gentes
Descobre além da aparência,
é antes de tudo
LIVRE, e por isso conhece.
Quando o poeta fala
Fala do seu quarto, não fala do palanque,
Não está no comício, não deseja riqueza
Não barganha, sabe que o ouro é sangue
Tem os olhos no espírito do homem
No possível infinito. Sabe de cada um
A própria fome. E porque é assim,
eu te peço:
Escuta-me. Olha-me.
Enquanto vive um poeta
O homem está vivo.
Poema VI - "Poemas aos homens do nosso tempo"
Hilda Hilst em Júbilo, memória, noviciado da paixão.
Organização Alcir Pécora. São Paulo: Globo, 2001
distância
daí me ouves
através do Atlântico
pela costa que separa
todos os teus relevos
do meu corpo mais ao Sul
(planaltos
e planícies
sob o céu
desta noite)
e dentro do meu peito
um grito irrefreado
a estourar nossas estrelas.
através do Atlântico
pela costa que separa
todos os teus relevos
do meu corpo mais ao Sul
(planaltos
e planícies
sob o céu
desta noite)
e dentro do meu peito
um grito irrefreado
a estourar nossas estrelas.
gataria
no vão daquela hora
em que a noite desaba
sobre o dia enegrecido
resta um outro segundo
para o tempo do mundo
guardar todos vocês
noutra madrugada
no meio do nada
pelas ruas vazias
encharcadas de sereno
sobre alguns gramados
em todos os telhados
um deles é branco
outro é preto
todos pardos.
12 de setembro de 2018
inverno
frio na manhã
um deus solúvel
manda águas
estás sobre mim
e dentro
em estado líquido
a chuva reúne nuvens
que vão e voltam -
aves, revoadas
hoje te vejo
quando fecho os olhos
a melhor fotografia
fica nas retinas
ou quando chove
e a natureza me alcança
por dentro.
11 de setembro de 2018
egotrip
em tempos de Facebook e Instagram,
um amigo é para te ver nutrir-curtir
a flor do teu próprio umbigo -
amizade de verdade é coisa démodé.
paradeiros
alguns caminhos são tortuosos:
levamo-nos (ou nos trazemos)
com lentidão ou urgência
de tão labiríntica a vida,
nós nem sempre sabemos
onde (e quando) vamos parar.
(imagem: Aydin Büyüktas)
9 de setembro de 2018
sem suposição
invejo mesmo
é o meu cachorro:
sem a suposição
de ser chamado
sem a suposição
de ser chamado
de cachorro,
só deita e rola
e sabe a que veio -
sem se perguntar
de onde e por quê.
horizontes
lá onde áfricas
escondem-se
vejo apenas
uma linha
a separar
a água de lá
da água de cá
mas se o traço
a noite escura
pinta, essa linha
- agora retinta -
quase não posso
enxergar,
águas de azuis
diferentes
misturam-se,
pretas-azuladas
fundem-se
em um mesmo mar.
vejo apenas
uma linha
a separar
a água de lá
da água de cá
mas se o traço
a noite escura
pinta, essa linha
- agora retinta -
quase não posso
enxergar,
águas de azuis
diferentes
misturam-se,
pretas-azuladas
fundem-se
em um mesmo mar.
8 de setembro de 2018
disco rígido
não digo tudo o que penso.
não escrevo tudo o que sinto.
não lembro de tudo o que sonho.
não escrevo tudo o que sinto.
não lembro de tudo o que sonho.
tanta coisa habita as madrugadas
tantos pensamentos
dentro dos pensamentos.
dentro dos pensamentos.
ao acordar,
um fiapo de noite espeta os olhos
um fiapo de noite espeta os olhos
e os sonhos desprendem-se
das pálpebras
das pálpebras
quase nunca
minha mão acompanha
a velocidade dos pensamentos
eles não se prendem
eles não se prendem
às pontas dos dedos
nem às pontas da língua
nem às pontas da língua
vão além da concretude
não precisam fazer sentido
prefiro as perguntas.
(imagem: Man in a Bowler Hat, de Magritte)
(imagem: Man in a Bowler Hat, de Magritte)
7 de setembro de 2018
o retorno de Saturno
ao tropeçarmos em nossas esquinas,
encontramos algumas verdades.
sempre há algo além do fim das ruas,
mesmo dos becos sem saída.
a Terra não é plana
como acreditavam ser antigamente
como acreditavam ser antigamente
- como muitos ainda acreditam ser -,
o que nos mantém de pé é o céu aberto,
a gravidade nos finca no chão,
os sonhos, não.
o que nos mantém de pé é o céu aberto,
a gravidade nos finca no chão,
os sonhos, não.
tudo isto é normal?
de perto, quem?
vivemos porque nos fazemos falta.
de perto, quem?
vivemos porque nos fazemos falta.
andamos pelas cidades
que por elas um dia andaram
quando não eram cidades
que por elas um dia andaram
quando não eram cidades
e então voltamos às esquinas,
como quem já conhece o tropeço.
sempre há algo além do fim das ruas,
mesmo quando já sabemos.
a Terra não é plana -
ou apenas esquecemos o modo
como ela curva.
o céu ainda aberto,
a gravidade ainda insiste no chão,
os sonhos ainda não.
tudo isto é normal?
de perto, quem?
fagulha
uma claridade nos acende
por dentro - dentro em nós
onde existe uma chama
que queima sem incendiar
fogo silencioso ardendo aceso
como se um vento atiçando
(rajada de força invisível)
qualquer resquício de faísca
fizesse surgir um secreto clarão
que nos iluminasse e alimentasse
e só nós pudéssemos enxergar.
(imagem: Sergio Buratto)
Assinar:
Postagens (Atom)







