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azulcinação

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pelos céus
pelos oceanos
água-viva da lua
cirurgião-patela
(Dory a nadar)
pinguim-fada
gaio e garça
ararinha: azul
em extinção
que também voa

Yves Klein (cor
patenteada):
1001 balões
de gás hélio
no céu de Paris
e antropometria
- azul calcinha sem

Picasso, um período

ciano e magenta
em sobreposição
= casa da Frida
Kahlo: cobalto

cerúleo
cárdeo
celeste

safira
azurita
tanzanita
chacantita
labradorita
água-marinha:
tons endurecidos

no espaço
Netuno, Urano
Terra - água
transparente
do alto é azul

na maior parte
das bandeiras
dos países
sul-americanos

e o mar
pouco
a pouco
engolindo
Tuvalu
e Kiribati

enquanto
isso, no Brasil
Roberto Carlos
melosamente
ainda canta
os detalhes
tão pequenos
de nós dois.



(imagem: Yves Klein)

Manchinha

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O caso da cadela Manchinha, que morreu depois de ter sido envenenada e cruelmente agredida com uma barra de metal por um segurança (asqueroso) do supermercado Carrefour, em Osasco (SP), ganhou enorme repercussão nacional. Eu fiquei dilacerado quando soube do caso, ainda mais depois que vi as fotos, essa em que ela ainda estava viva e aparentemente bem, linda com as patinhas cruzadas e olhando fixamente para a câmera de quem a fotografou, e outra em que ela estava envolta em sangue, uma imagem horrível. Fui pesquisar mais sobre o caso e descobri que esse não é um caso isolado, há um histórico de mortes de animais nas unidades do Carrefour e até mesmo um caso grave de racismo contra um homem negro ocorrido há alguns anos, na mesma unidade em Osasco, quando ele foi espancado por seguranças no estacionamento acusado de roubar o próprio carro, felizmente um tempo depois ele recebeu indenização da empresa. Mas a cadela Manchinha não teve a mesma sorte de poder seguir viva, assim como os ou…

horizontes II

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cor da linha do horizonte
onde áfricas escondem-se,
não vejo a tez: rosa, preta
laranja, amarela
são só talvez
(à espera
de alumbramentos,
eu canto, eu canto
porque o instante existe)

sobre as dúvidas

há certezas que enferrujam
as juntas, são mal-humoradas,
sofrem de dores lombares.
quem pensa estar sempre certo,
está equivocado
(não vai além das bordas)
prefiro amolecer as dobras
transbordando dúvidas
e com perguntas expandir a alma
para que nela caiba mais mundo.

no jornal Zero Hora

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mais um poema meu foi publicado no jornal Zero Hora (quarta-feira, dia 5),
dessa vez o poema "dos devires":


nada é.  tudo está.  as chagas, as árvores,  as fachadas das casas,  das igrejas,  os lençóis sujos dos puteiros,  a saliva dos monges,  as línguas bifurcadas das cobras,  dos seres vivos à matéria inorgânica,  tudo denuncia a passagem do tempo: existir é transmutar.

um naco de simplicidade

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benditos os que fazem
o almoço de domingo
enquanto cantam, dançam
e riem de si mesmos
ouvindo qualquer estação
mais popular de rádio,
os que nem estão pensando
em dizer nada de mais,
nada de muito eloquente,
nada de grandiloquente,
nada de impressionante,
apenas sentindo o cheiro
da cebola fritando no óleo
enquanto o cachorro e o gato
correm da sala para a rua.

benditos os que
nem se pensam poetas
- ou não se sabem -,
mas que veem poesia
onde quase ninguém
mais consegue,
olham além da janela
enquanto cozinham
e percebem que o sol
não é apenas
uma bola amarela no céu,
notam sempre todos
os desenhos feitos
por todas as nuvens
e não perdem a capacidade
de serem surpreendidos por elas
porque não estão olhando somente
para dentro de si mesmos
- transparentes para que não tenham
com o que lhes manchem, vivem.


(imagem: JMW Turner)

coexistência

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não tenho classe.
não tenho bons modos.
não vim para ser
complacente
a qualquer custo.
não sou água
com açúcar.
prefiro parecer azedo
se for para ser
docemente fingido.
não sou indireto.
não tenho medo
do que quer dizer
aquilo que digo.
não me meço
por números,
diplomas,
curtidas,
cédulas.
não valho,
para mim,
o que eu tenho,
eu sou, para mim,
o que eu sou.
não sou um autômato.
meu corpo
em integração
com a natureza
não precisa de plateia.
não corro o risco
de acabar sentindo
inveja de mim mesmo
por me achar melhor
em uma rede social
do que em casa
em frente ao espelho.
não sou cidadão de bem,
admito que erro também.
entre a matéria
e o impalpável,
a convivência
é uma arte
- e a arte também
é indômita, espinhosa.
não sou unilateral.
assumo minhas sombras:
em cada um de nós
brilha um sol por dentro
e há também o escuro
sombrio das madrugadas.


(imagem: Alberto Guignard)



gris

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de repente o céu acinzentou
como noite que chega
antes da hora
- como volta e meia
as lembranças
que esquecemos
ressurgem
mudando a cor
do dia em nós dentro

(hoje, um teto gris
de nuvens traz a cor
de uma tarde
lá pelos idos
de 1900 e guaraná
com rolha)

é chuva sobre a cidade,
passageira,
noite de mentira
que não rende estrelas

(eu vendo fora e dentro:
lá em cima
um faz de conta
da natureza,
aqui dentro
anos passando
sob o lado oculto
das retinas)

estrelas quando acendem
lembram-me
que só com elas
a noite é verdadeira.
observo.
absorvo.
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"Jesus é 'dahora', o que fode é o fã-clube."
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"Escarrar de um abismo noutro abismo,
Mandando ao céu o fumo de um cigarro
Há mais filosofia neste escarro
Do que em toda a moral do cristianismo!"

Augusto dos Anjos


(imagem: eu por Andrisa Rodrigues)

Wislawa Szymborska: "Tem aqueles que"

Tem aqueles que executam a vida de modo eficaz,
põem ordem em si mesmos e ao seu redor.
Têm resposta correta e jeito para tudo.

Adivinham logo quem a quem, quem com quem,
com que objetivo, por onde.

Batem o carimbo nas verdades únicas,
colocam no triturador os fatos desnecessários,
e as pessoas desconhecidas
em fichários de antemão destinados a elas.

Pensam só o quanto vale a pena,
nem um instante mais,
pois detrás desse instante espreita a dúvida.

E quando recebem dispensa da existência,
deixam o posto
pela porta indicada.

Às vezes os invejo
- por sorte isso passa.


in Um Amor Feliz,
tradução de Regina Przybycien,
Companhia das Letras, São Paulo, 2016.

Adriana Calcanhotto: "Calor"

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tarde turquesa
quarenta graus
talvez porque você não esteja
tudo lateja
tarde sem nuvem
cinquenta graus
talvez por sua ausência
tudo derreta
noite sem ninguém
nada se mexe
eu sonho nosso amor a sério
e você em outro hemisfério
enquanto tudo derrete
enquanto tudo derrete
enquanto tudo parece
derreter

"there's a natural mystic blowing through the air..."

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(da janela do meu quarto)

inefável

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sem palavra mascarada,
frase feita, falso nacarado
fora de hora sobre a língua
colocado, pelo chão,
sobre o tapete,
patas, bigodes,
manchas pretas.
qual conchas
no fundo do mar,
poesia não apenas
dentro de poemas,
o silêncio
do meu cachorro,
ou o instante de latido
- com nexo -,
produz pérolas.

Ó

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"Sem conseguir escolher se a vida é bênção ou matéria estúpida, examinar então, pacientemente, algumas pedras, organismos secos, passas, catarros, pegadas de animais antigos, desenhos que vejo nas nuvens, cifras, letras de fumaça, rima feita de bosta, imensidão aprisionada numa cerca, besouros dentro do ouvido, fosforescência do organismo, batimento cardíaco comum a vários bichos, órgãos entranhados na matéria inerte, olhando a um só tempo do alto e de dentro para o enorme palco, como quem quer escolher e não consegue: matéria ou linguagem?" (p. 18)

Wilson Torres Nanini: "social"

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às vezes, bem no meio da meia-
noite doce e bárbara do orgasmo,
pousa, sem cheiro, sem canto,
uma ave negra no âmago
: atravessa-me o cerne uma
lembrança canhota,
que me põe poeta
e, então, me ocupo
de toda ausência e dor do mundo

às vezes, em meio à meia-
febre álacre e explosiva da festa
– vaidade das vaidades –
fico sem nudez, sem riso,
e um silêncio pétreo feito de
cânticos endurecidos me grita
áfricas e nordestes,
orfanatos e asilos
: uma vontade como a de uma
serra leoa de devorar os eua
e a de uma capelinha de roça
de engolir catedrais vaticanas


(imagem: Kevin Carter)

longa carta para ninguém

eu nunca soube o que queria ser quando crescesse. na escola, achava engraçado quando alguns colegas falavam com tanta convicção sobre o que queriam ser, geralmente a mesma coisa que seus pais, nada muito original, e eu pensava: ainda nem têm pentelhos e já acham que sabem tudo. quanto a mim, sei que quanto mais aprendo, mais sei, através do que até então não sabia, que ainda tenho muito o que aprender. nunca gostei de aprender algo por obrigação. sempre pensei que estudar matemática, por exemplo, para quase nada me serviria. tenho dificuldade em fazer contas e decorar sequências de números. sempre preferi história, geografia, literatura e português. gosto de latim e das línguas de origem latina, principalmente o espanhol, acho bonito o idioma francês. sou de gêmeos com ascendente em escorpião e lua em câncer. não sei muito bem qual o resultado dessa mistura, o que ela significa, mas penso ter bem evidentes em mim algumas das características que dizem ser típicas de cada um desses sig…

Receita para não ser alvo de intolerância (e talvez ser popular) no Brasil em tempos de Bolsonaro

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Antes de tudo, se você nasceu homem, branco e é heterossexual, um ponto a mais para você, você já tem uma vantagem em relação aos demais. Mas independente do seu sexo, da sua identidade de gênero, da cor da sua pele, da sua orientação sexual, diga que você é uma pessoa cristã, não importa ser de verdade (ser é outra história), apenas diga que é. Fale muito em nome de Deus. Não siga nenhuma religião de matriz africana, isso é "coisa de pobre" e "macumbeiro". Ayahuasca nem pensar, isso é coisa de "gente doida". Se você for ateu, não diga, omita, não importa, para ser benquisto é preciso ter "Deus no coração". Diga sempre que você é do bem, e, claro, apenas do bem (seja maniqueísta, não importa que, na verdade, sejamos todos feitos de luzes e sombras, diga que você faz parte apenas do "reino das luzes"). Sobre economia, dizer que é liberal é o mais indicado, diga que é liberal também sobre determinadas questões sociais, sobre as liberdad…

Partido do Cidadão de Bem

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O Baile do Cidadão de Bem

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(Helbeth Trotta, Jhê Delacroix, Paim e Regina Célia)

Mercedes Sosa: "Oración al Sol"

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Sol, antiguo Sol, Padre Inmortal
Dador de vida y de salud
Desde el tiempo de piedra de la América mía
Hoy como ayer escucha atento mi oración

Danos el maíz que alimenta, el agua que es vida
Y la lana que abriga del frío
Danos la paz, la justicia, el respeto
A este pueblo sufrido que es tuyo y es mío

Sol, mi Padre Sol, calienta el aire
Con tu llama secular
Que tu fuerza nos llegue corazones adentro
Y tu vigor sostenga mi debilidad

Danos valor para pelear
Por lo que es nuestro y nos quieren sacar
Ayúdanos a derrotar
A los que quieren hacernos el mal

Que no se apaguen las velas
Que ardan marcando los siglos del Inca y su fe
Vendrá el ganado, estira las siembras
Desata tus fuentes de leche y de miel

Vuelva a brillar en su esplendor
Tawantinsuyo, la Tierra del Sol
Bajo tu luz crezcan en paz
Pueblos andinos y pueblos del mar

Danos valor para pelear
Por lo que es nuestro y nos quieren sacar
Danos el maíz que alimenta, el agua que es vida
Y la lana que abriga del frío
Danos la paz, la justic…

Chico Nostradamus Buarque

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No documentário intitulado "Vai passar", lançado em 2005, Chico Buarque falou sobre uma possível ascensão de um líder autoritário no Brasil: 
"Hoje em dia a gente já percebe nesse mesmo pensamento da classe média uma certa vontade de ordem em nome da segurança, disso e daquilo. Leitores em cartas a jornais explicitam desejo da volta de um governo forte, no sentido de repressão, por causa da violência. Esse pensamento não acabou."
"Não imagino uma coisa como um golpe militar. Mas não imagino como uma coisa tão absurda, amanhã, um líder populista, com discurso autoritário, em nome da segurança, contar com apoio popular muito grande. Com apoio popular, e democraticamente eleito, exercer o governo de forma autoritária, como foi. Não imagino a ditadura como ela foi, mas outra coisa. Os efeitos violentos dela, a truculência, a arbitrariedade estão lá."

Fernando Pessoa e o fascismo

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(Bernardo Mello Franco)

Dirceu Villa: "ratos brotando dos bueiros"

você sabe bem que eles são roedores, e como também são infectos: ratos, eles se escondem até que então saem, ratos dosgrandes, com muita energia nervosa, cheios de peste nas presas, furtivos não mais, animais coletivos, mas sempre covardesde esgoto na espessa violênciadegrupo: a sujeira em suas línguas de ralo ergue os ratos do escuro e velho buraco; não vivem de resto ou rasteiro: reis na ratice, nosgolpesditam as regras de ratos pra todo mundo que seja um bom rato como eles - às vezes, numpaís inteiro, às vezes depois de fugir, por uns bons 30 anos. quem não é rato, cuidado: pois há ratos brotando dos bueiros.

Arnaldo Antunes: "Isto não é um poema"

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O Diabo veste farda

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Wislawa Szymborska: "Autotomia"

Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.
Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.
No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.
Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.
Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.
Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.
Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.
Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.
Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um voo.
O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.

In: Um amor feliz. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p.142

Bozonaro, bufão "cristão" e "cidadão de bem"

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Independente de partidos políticos, o que busco, antes de tudo, é seguir o bom senso e não apenas o senso comum, não sou boi para seguir determinadas boiadas, e muito menos quando essas determinadas boiadas vão em direção ao que fere e marginaliza a existência de tantos outros seres que existem. A grande maioria dessas pessoas que estão por aí exibindo bandeiras do Brasil nesse momento, ou carregando a bandeira estampada sobre o peito na camiseta, votam usando apenas a primeira pessoa do singular, não a primeira do plural, pensam apenas em si mesmas, são egoístas e, na verdade, bem na verdade mesmo, não é exatamente com a situação do país que elas estão preocupadas, preocupam-se é com seus próprios umbigos, com seus próprios confortos, bens materiais, casas, carros, com suas próprias vidas, não têm, no fundo (nem no raso) um sentimento de empatia pelos outros, não têm a capacidade de um olhar verdadeiramente mais compassivo sobre a vida dos outros seres, inclusive os bichos.

A questã…

Regina Schöpke: "A crueldade humana"

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Quando o escritor português José Saramago afirmou que os animais podem ser selvagens, mas que apenas o homem é cruel, ele estava chamando a atenção para um fato bastante inquietante, que subverte profundamente a imagem que temos de nós mesmos. Ele estava dizendo, da maneira mais clara e assustadora possível, que a crueldade é um fenômeno humano (e não animal). Uma afirmação que, sem dúvida alguma, põe em jogo duas certezas bastante arraigadas em nós: a de que o excesso de agressividade está relacionado à nossa herança selvagem e a de que a razão fez do homem um ser realmente superior.
De fato, do ponto de vista moral e ético, a ruptura que o homem fez com a vida natural não parece ter feito dele um ser melhor. É claro que se pode alegar que somos superiores exatamente porque somos os únicos animais capazes de desenvolver uma moral e uma ética, mas isto também não depõe muito em nosso favor, já que também somos os únicos a realmente precisar delas, já que os animais vivem integrados à n…

morte e vida

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a morte não nos diferencia por crenças, ideologias, cores, deseja todos igualmente para si, mortos somos todos igualmente mortos, enquanto vivos (ainda que vivos estejamos igualmente vivos aos que ainda estão vivos) não somos todos iguais, a vida é seletiva, a morte não, ela não nos diferencia, diferentes são as formas de morrer, como diferentes são as formas de viver, estar vivo, ser, morto é uma forma só, vivos somos todos diferentes, o contrário do que dizem na tentativa de nos homogeneizar, e porque esperam que sejamos todos iguais é que há tantos tipos de intolerâncias que reverberam pelo mundo, os vivos estampam sortimentos, prateleirizam sentimentos, engavetam pensamentos, que a morte nos liberta de todos, dos que sobre nós mesmos temos e sobre os outros, a vida é pluralidade e portanto saber-se único entre tudo o que nos diferencia e também nos assemelha, mas que ainda assim não nos torna iguais: diversidades, oscilações, diferentes tons, sons, contratempos, contagem, sopro, …

ressignificância

quando, desbragadamente,
tu desprendias palavras
das pontas dos dedos,
quando, em qualquer tom,
a tua língua solta, ácida
- chama ardendo
acesa apascentando
teus demônios -,
rasgava o verbo, os recatos,
teu corpo inteiro transparente,
a cabeça e tuas extremidades
revelavam tudo o que hoje,
aparentemente protegido
sob uma armadura qualquer,
segue em guerra dentro de ti
(falava mais que o homi da cobra,
agora silêncio é escudo)

(im)permanência

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meu corpo, a minha voz
meus tropeços, tudo em mim
será até quando,
um somar anuários
- de carne e osso
sou sujeito a durar pouco
(o que vinga a existência,
acesso ao infinito, é pedra:
em silêncio impondo sua forma,
não murcha sob - ou sem - a água)


(imagem: Paul Bond)

panaceia

absorver máximas e cultivá-las
desenrijecer antigas estruturas
cá na Terra, vale até mesmo a fé
em um para-choque de caminhão
ou, se for ousar novos caminhos,
até trocar os pés pelas mãos
plantar bananeiras,
praticar infinitivos:
crer, infundir, buscar...
e, para nunca se arrepender
de não ter tentado, tentar.

como se tornar um cidadão de bem

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um espelho da ignorância humana

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Texto de André Nascimento Pontes,  professor de Lógica do Departamento  de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas

Bolsonaro é uma mentalidade

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por Juremir Machado

Não, Jair Bolsonaro não é um candidato como outro qualquer. É pior. Ele é um imaginário, uma mentalidade, uma visão de mundo. O seu método de leitura do que acontece na vida é a simplificação. Torna o complexo falsamente simples por meio de uma redução a zero dos fatores que adensam qualquer situação. Se há violência contra os cidadãos, que cada um receba armas para se defender. Se há impunidade, que a justiça seja sumária e sem muitos recursos. Se há bandidos nas ruas, que a polícia possa matá-los sem que as condições de cada morte sejam examinadas. Se há corrupção, que não se perca tempos com processos.
Bolsonaro encarna o pensamento do homem medíocre, o homem mediano que não assimila explicações baseadas em causas múltiplas. Se há miséria, a culpa é da preguiça dos miseráveis. Se há crime, a culpa é sempre da má índole. Se há manifestações, é por falta de ordem. A sua filosofia por excelência é o preconceito em tom de indignação moral, moralista. A sua solução ide…