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Torres por mim

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a cidade de Torres comemorou 141 anos de emancipação política administrativa no dia 21 de maio. esse lindo lugar em que eu nasci, que fica no litoral norte do Rio Grande do Sul e faz fronteira com o estado de Santa Catarina (com o Rio Mampituba dividindo os dois estados), é conhecido por suas praias, a ilha dos Lobos (uma pequena ilha em frente à cidade e que abriga lobos-marinhos e leões-marinhos em determinadas épocas do ano), seus morros (os paredões) e seu Festival de Balonismo, período do ano em que, além do verão, a cidade costuma receber muitos turistas. embora seja uma cidade pacífica, minha relação com ela nem sempre foi pacífica, houve muitos momentos em que tive a sensação de não caber, não me encaixar muito bem dentro da cidade. fui embora por volta dos 18 anos de idade e, desde então, morei em alguns outros lugares e foi nesses outros lugares que comecei a ter uma nova percepção (ainda bastante crítica, sempre, mas muito mais afável) sobre a cidade em que nasci e fui cri…

animalium

ainda que qualquer bicho
seja melhor
do que qualquer pessoa,
todo ser humano -
o único animal
que é também
desumano -,
é um pouco rã,
coruja, lagarto...
transmuta-se
em diferentes cores
conforme as suas
circunstâncias:
às vezes se camufla
de imaculado, virtuoso
para no instante seguinte
ser torpe, ardiloso.
vivemos em um jogo
tartufo de interesses
ao paladar
de nossas próprias
conveniências,
por melhores que sejam
nossos intentos,
propósitos,
todos somos,
enfim, como escreveu
Eduardo Galeano,
o que fazemos
para transformar
o que somos.

traduzir-se

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Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa e pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


(poema de Ferreira Gullar
na voz de Adriana Calcanhotto)



Hilda Hilst: "Compaixão também é política"

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Já sei que tá cheio de gente sofrendo, velhos, crianças, mulheres, nordestinos, favelados, mas é preciso também fazer alguma coisa urgente e batalhar contra a crueldade em relação aos animais. Há algum tempo ouvi dizer que serravam cavalos vivos porque a dor fazia com que o couro ficasse macio... Fui vomitar ventando no meu pinico de barro. E depois comecei com aquilo tudo que vocês já sabem, a hora dos tamancos. Bem, continuando. Ouvi emocionada, há alguns dias, o relato de uma admirável jovem mulher, Mara Thereza, que há anos vem salvando cavalos doentes e abandonados, ou atados às carroças, com os cascos em carne viva, ou corroídos de sarna e de feridas, e aí ela, Mara, até pede para comprar, mas o dono diz: inda tá bonzinho, dona, veve mais uns dia trabaiando... E o bicho todo esfolado, sangrando. Eh... gente "simpres" e boa!

Em 1964, quando vim para Campinas, um amigo meu quis me levar à Hípica. Fui, achei tudo lindo até que me deparei com uma égua e sua cria num matag…

el placer de servir

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(na ponte sobre a Lagoa do Violão)

“Toda la naturaleza
es un anhelo de servicio;  sirve la nube, sirve el aire, sirve el surco.  Donde haya un árbol que plantar,
plántalo tú;  donde haya un error que enmendar, enmiéndalo tú;  donde haya un esfuerzo que todos esquiven, acéptalo tú.  Sé el que aparte la estorbosa
piedra del camino, sé el que aparte el odio
entre los corazones  y las dificultades del problema.  Existe la alegría de ser sano
y de ser justo;  pero hay, sobre todo, la hermosa,
la inmensa alegría de servir.  ¡Qué triste sería el mundo si todo en él estuviera hecho,  si no hubiera rosal que plantar,
una empresa que acometer! Que no te atraigan solamente los trabajos fáciles:  ¡Es tan bello hacer lo que otros esquivan!  Pero no caigas en el error  de que sólo se hace mérito
con los grandes trabajos;  hay pequeños servicios
que son buenos servicios:  adornar una mesa, ordenar unos libros, peinar una niña.  Aquel es el que critica,
este es el que destruye, sé tú el que sirve.  …

quem mandou matar Marielle?

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(imagem: Suite de Ideias)

hoje, dia 14 de março de 2019, os assassinatos de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes completam um ano. dias atrás foram presos dois suspeitos dos assassinatos, mas as perguntas seguem sem respostas: quem mandou matar Marielle? por quê? 
deixo aqui dois dos 50 poemas que integram a antologia Um girassol nos teus cabelos - poemas para Marielle Franco (Quintal Edições, 2018), organizada pelo Mulherio das Letras, com curadoria de Cidinha da Silva, Eliana Mara e Marilia Kubota, orelha assinada por Áurea Carolina e ilustração de capa de Iêda Carvalho:


Turmalina
mar revolto mar envolto de luto e luta lança ao mar a morta a viva mira a turmalina à tona do mar turvo tumulto das olas do mar tragando o tronco da morta as marolas lavam lambem a lã na testa o último toque à vista da viva mareja o olho lacrimeja a pálpebra ao longe avista a costa pálida capitaneia o espírito de quem viverá livre um dia mareada margeada por empecilhos marginalizada mas maravilha…

Mafalda, 50 anos de feminismo em tirinhas

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Mafalda é uma menina que não se cala nunca, mas o que a torna uma feminista é que acima de tudo acredita na equidade.QUINO

por Fernanda Caballero - do EL PAÍS

Mafalda é uma personagem que nasceu há mais de 50 anos, mas as suas reflexões não deixam de ser atuais. Desde sua concepção, Mafalda tem sido reflexiva e combativa em questões como maternidade, guerra e infância. Mafalda: Femenino Singular é a nova compilação das tirinhas de Quino da editora espanhola Lumen, que pretende mostrar o que faz da personagem um ícone da luta das mulheres.
Lola Albornoz, editora da Lumen e responsável pela antologia, explica a Verne que a ideia desta seleção surgiu com a imagem de Mafalda em faixas durante a manifestação feminista de 2018 na Espanha. "No trabalho de Quino há muita reflexão que pode contribuir para o movimento feminista", comenta.
Quino declarou recentemente sua afinidade com a luta feminista: “Sempre acompanhei as causas de direitos humanos em geral e dos direitos das mulheres e…

Todos os heróis de Jair Bolsonaro

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Augusto Pinochet e Alfredo Stroessner, heróis de Jair Bolsonaro. (Foto: Reprodução/YouTube)

por João Filho - The Intercept Brasil


A cerimônia de posse do novo diretor-geral da hidrelétrica de Itaipu tinha tudo para ser uma ocasião corriqueira na agenda de Bolsonaro. O ex-capitão nomeou um general para o cargo e aproveitou o evento para exaltar os ditadores brasileiros que participaram da construção da usina binacional junto com o Paraguai. Afirmou que Castello Branco foi “eleito em 1964″ e saudou Costa e Silva, Médici e Geisel. O último ditador militar, Figueiredo, foi merecedor de um afago especial: “saudoso e querido”. Nada de mais até aí. Prestar homenagens à ditadura militar é um cacoete do nosso presidente.

Mas o que era pra ser um evento trivial acabou ganhando destaque pela exaltação que o presidente brasileiro fez do general Alfredo Stroessner, o ditador sanguinário que comandou o Paraguai com mão de ferro por 35 anos (1954 – 1989), sendo o que mais tempo ficou à frente de um paí…

o sol se equilibrando sobre o fio de energia elétrica

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(da janela do meu quarto)

"Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só fazer outras maiores perguntas."
João Guimarães Rosa Grande Sertão: Veredas 

no NotaTerapia

uma matéria linda sobre mim (com alguns dos meus poemas) foi publicada no NotaTerapia, que é um espaço da internet com ótimo conteúdo para quem gosta de arte, literatura e poesia (para os que ainda não conhecem o site, deixo aqui a sugestão de visita, vale muito a pena, há sempre matérias bem interessantes sendo compartilhadas por lá!). eis o link: 
matéria-no-NotaTerapia

Farra do Boi

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(imagem: PMF)
eu soube, e fiquei feliz com a notícia, que a prefeitura de Florianópolis (lugar lindo que eu costumava visitar muitas vezes com minha família durante a minha infância e onde muitos anos depois morei por algum tempo) lançou uma série de ações para conscientizar a população sobre a crueldade da farra do boi. além de intervenções artísticas em alguns pontos da cidade, exposição de faixas, inclusive uma na entrada da ilha, a cidade também planeja ações de repressão para quem insiste em cometer o crime da farra do boi. 
para quem não sabe do que se trata, uma breve explicação: a farra do boi é uma prática ilegal que consiste em soltar o animal em algum local ermo e fazê-lo perseguir os participantes da prática, que agridem o boi com objetos, algo que só acaba quando ele está exausto e machucado a ponto de não conseguir mais nem levantar (os bois geralmente acabam sendo sacrificados). a prática foi proibida há mais de duas décadas pelo Supremo Tribunal Federal, mas nem a lei…

Revista InComunidade

alguns dos meus poemas foram publicados na edição de fevereiro da revista portuguesa InComunidade. para quem quiser ler a edição, eis aqui o link:


Revista InComunidade

dos achados e achismos

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Glauco Mattoso

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morei durante algum tempo em São Paulo e minha chegada na cidade coincidiu com o período em que uma editora de livros estava se organizando para inaugurar um centro cultural onde haveria uma livraria e também um grande espaço em que funcionaria uma galeria de arte. fui contratado para trabalhar nesse local, onde acabei ficando por um bom tempo. além de lançamentos de livros em um espaço da própria livraria, havia, também, uma grande sala onde aconteciam palestras e saraus literários. eu participava, quando era possível, de alguns desses encontros. tive a oportunidade, então, de conhecer vários escritores, poetas e artistas plásticos de muitas partes do Brasil. 
em um desses encontros, que geralmente aconteciam aos sábados, teríamos a participação do escritor e poeta Glauco Mattoso. eu não sabia muito sobre ele até então, sabia, por exemplo, da música "Língua", em que ele foi citado por Caetano Veloso, e, a partir disso, como uma porta de entrada, eu fui ler, muitos anos atr…

Hilda Hilst: "Cronista: filho de Cronos com Ishtar"

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Uma das coisas que eu mais admiro em alguém é o humor. Nada a ver com boçalidade. Alguns me pedem crônicas sérias. Gente... o que fui de séria nos meus textos nestes quarenta e três anos de escritora! Tão séria que o meu querido amigo, jornalista e crítico, José Castello, escreveu que eu provoco a fuga insana, isto é, o cara começa a me ler e sai correndo pro funil do infinito. Tão séria que provoco o pânico. E nestas crônicas o que eu menos desejo é provocar o pânico... Já pensaram, a cada segunda-feira, os leitores atirando o jornal pelos ares e ensandecendo? Já pensaram o que é isso de falar a sério e dizer por exemplo: que é isso, meu chapa, nós vamos todos morrer e apodrecer (ainda bem que não é apodrecer e depois morrer, o lá de cima foi bonzinho nesse pedaço), tu não é ninguém, meu chapa, tudo é transitório, a casa que cê pensa que é sua vai ser logo mais de alguém, tu é hóspede do tempo, negão, já pensou como vai ser o não-ser? Tá chateado por quê? Tu também vai envelhecer, f…

GAZETA DE POESIA INÉDITA

meu poema litosfera foi publicado na GAZETA DE POESIA INÉDITA, do poeta português José Pascoal (autor dos livros Sob Este Título, Antídotos e Excertos Incertos, todos publicados pela Editorial Minerva, de Lisboa). aos que ainda não conhecem a GAZETA e queiram conhecer, eis o endereço:

gazetadepoesiainedita.blogs.sapo.pt

alcoba azul

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La noche irá sin prisa
de nostalgia
Habrá de ser un tango
nuestra herida
Un acordeón sangriento
nuestras almas
Seremos esta noche
todo el día

Vuelve a mí
Ámame sin luz
En nuestra alcoba azul
Donde no hubo sol
para nosotros

Ciégame
Mata mi corazón
En nuestra alcoba azul
Mi Amor


voz: Lila Downs
letra: poeta mexicano Hernán Bravo Varela
música: Elliot Goldenthal



intento

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intento da língua
também é caber
dentro da boca
em que saliva

língua solta
só se for quieta
dentro da boca
que é outra

língua na outra
é recíproco
cabe no que diz
em silêncio

algumas línguas
preferem não
a minha língua
prefere assim:

calada no céu
de uma boca
que joga saliva
dentro de mim. 



(imagem: Schiele)

Pessoa. pessoas

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eis como deveria ter sido o discurso de Bolsonaro na Suíça

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céu. inferno. cagação de regras

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um dia desses um amigo me mostrou um vídeo em que um pastor em uma igreja (não sei qual) falava sobre "céu e inferno" citando como exemplos uma lésbica que ele conhecia, o "movimento LGBT" e os "crentes". segundo o tal pastor, a tal lésbica usava bermudas (como se bermudas fossem roupas que somente homens usassem ou deveriam usar), tinha o cabelo curto (como se somente homens tivessem ou pudessem ter os cabelos curtos), mas que "todo mês ela menstruava pra Deus mostrar pra ela que ela é mulher". ainda segundo o tal pastor, "criticar o 'movimento LGBT' dá processo, mas criticar os 'crentes' leva pro 'inferno'", como se ele estivesse sendo muito corajoso por estar naquela igreja fazendo esse tipo de "crítica" (como se preconceito fosse apenas "crítica") que nem todos têm coragem de fazer e ao mesmo tempo dando a entender que ele estaria "livre do inferno" por ser "crente".

Literatura & Fechadura

3 dos meus poemas foram publicados na revista digital Literatura & Fechadura. quem costuma visitar este blog já leu os poemas, mas para os que ainda não conhecem a revista e queiram conhecê-la, deixo aqui o link:
www.literaturaefechadura.com.br

luz do sol

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(sol e eu)
luz do sol
que a folha traga e traduz
em verde novo
em folha, em graça, em vida
em força, em luz
céu azul que vem
até onde os pés tocam a terra
e a terra inspira e exala seus azuis
reza, reza o rio
córrego pro rio e o rio pro mar
reza a correnteza
roça a beira, doura a areia
marcha o homem sobre o chão
leva no coração uma ferida acesa
dono do sim e do não
diante da visão
da infinita beleza
finda por ferir com a mão
essa delicadeza
a coisa mais querida
a glória da vida

luz do sol
que a folha traga e traduz
em verde novo
em folha, em graça, em vida
em força, em luz

(Caetano Veloso)




litosfera

dividimos em pensamentos
nosso mundo - conferindo-nos
asas que nos movem e raízes
que nos aprofundam
na realidade de uns solos
e uns sonhos, grandes
territórios não mapeados -
e desde há muito,
também, rente às retinas,
o peso avaliado das coisas:
rochas, vulcões, Américas,
indígenas, linhas de Nazca,
moais, Taj Mahal, castas,
ossos de dinossauros,
Mona Lisa sorrindo
atrás do vidro,
tectônicas placas
em movimento:
um planeta inteiro
- em camadas -
(n)a nossa percepção.

bumerangue

se o que eu escrevo
acaba te alcançando,
não é porque te miro:
é porque tu te miras
em mim e me erras
em ti acertando.

azul e rosa: "afinal, existe a tal 'ideologia de gênero'?"

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(nova era no Brasil:
meninos vestem azul,
meninas vestem rosa. e quanto aos cabelos e tênis azuis?)

Damares Alves, a "Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos" do governo de Boçalnaro, aquela que viu Jesus na goiabeira, disse que uma "nova era" começou no Brasil: "meninos vestem azul e meninas vestem rosa". Damares, tal qual o novo presidente do Brasil, é uma pessoa de mente "muito evoluída", com ideias "nada retrógradas", obviamente. Ela disse, depois da repercussão do caso, que estava fazendo apenas uma "metáfora contra a 'ideologia de gênero'", esse assunto tão em voga há algum tempo no Brasil e dias atrás também abordado pelo novo presidente que, em seu discurso ideológico de posse, disse que quer combater a "ideologia de gênero". Lembrei, por causa disso, de um texto (excelente) de Maíra Zapater, do site Justificando, escrito em 2015, mas que deveria ser lido, no momento atual, por todos, …