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Dirceu Villa: "ratos brotando dos bueiros"

você sabe bem que eles são roedores, e como também são infectos: ratos, eles se escondem até que então saem, ratos dosgrandes, com muita energia nervosa, cheios de peste nas presas, furtivos não mais, animais coletivos, mas sempre covardesde esgoto na espessa violênciadegrupo: a sujeira em suas línguas de ralo ergue os ratos do escuro e velho buraco; não vivem de resto ou rasteiro: reis na ratice, nosgolpesditam as regras de ratos pra todo mundo que seja um bom rato como eles - às vezes, numpaís inteiro, às vezes depois de fugir, por uns bons 30 anos. quem não é rato, cuidado: pois há ratos brotando dos bueiros.

Arnaldo Antunes: "Isto não é um poema"

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O Diabo veste farda

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Wislawa Szymborska: "Autotomia"

Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.
Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.
No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.
Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.
Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.
Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.
Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.
Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.
Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um voo.
O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.

In: Um amor feliz. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p.142

Bozonaro, bufão "cristão" e "cidadão de bem"

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Independente de partidos políticos, o que busco, antes de tudo, é seguir o bom senso e não apenas o senso comum, não sou boi para seguir determinadas boiadas, e muito menos quando essas determinadas boiadas vão em direção ao que fere e marginaliza a existência de tantos outros seres que existem. A grande maioria dessas pessoas que estão por aí exibindo bandeiras do Brasil nesse momento, ou carregando a bandeira estampada sobre o peito na camiseta, votam usando apenas a primeira pessoa do singular, não a primeira do plural, pensam apenas em si mesmas, são egoístas e, na verdade, bem na verdade mesmo, não é exatamente com a situação do país que elas estão preocupadas, preocupam-se é com seus próprios umbigos, com seus próprios confortos, bens materiais, casas, carros, com suas próprias vidas, não têm, no fundo (nem no raso) um sentimento de empatia pelos outros, não têm a capacidade de um olhar verdadeiramente mais compassivo sobre a vida dos outros seres, inclusive os bichos.

A questã…

Regina Schöpke: "A crueldade humana"

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Quando o escritor português José Saramago afirmou que os animais podem ser selvagens, mas que apenas o homem é cruel, ele estava chamando a atenção para um fato bastante inquietante, que subverte profundamente a imagem que temos de nós mesmos. Ele estava dizendo, da maneira mais clara e assustadora possível, que a crueldade é um fenômeno humano (e não animal). Uma afirmação que, sem dúvida alguma, põe em jogo duas certezas bastante arraigadas em nós: a de que o excesso de agressividade está relacionado à nossa herança selvagem e a de que a razão fez do homem um ser realmente superior.
De fato, do ponto de vista moral e ético, a ruptura que o homem fez com a vida natural não parece ter feito dele um ser melhor. É claro que se pode alegar que somos superiores exatamente porque somos os únicos animais capazes de desenvolver uma moral e uma ética, mas isto também não depõe muito em nosso favor, já que também somos os únicos a realmente precisar delas, já que os animais vivem integrados à n…

morte e vida

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a morte não nos diferencia por crenças, ideologias, cores, deseja todos igualmente para si, mortos somos todos igualmente mortos, enquanto vivos (ainda que vivos estejamos igualmente vivos aos que ainda estão vivos) não somos todos iguais, a vida é seletiva, a morte não, ela não nos diferencia, diferentes são as formas de morrer, como diferentes são as formas de viver, estar vivo, ser, morto é uma forma só, vivos somos todos diferentes, o contrário do que dizem na tentativa de nos homogeneizar, e porque esperam que sejamos todos iguais é que há tantos tipos de intolerâncias que reverberam pelo mundo, os vivos estampam sortimentos, prateleirizam sentimentos, engavetam pensamentos, que a morte nos liberta de todos, dos que sobre nós mesmos temos e sobre os outros, a vida é pluralidade e portanto saber-se único entre tudo o que nos diferencia e também nos assemelha, mas que ainda assim não nos torna iguais: diversidades, oscilações, diferentes tons, sons, contratempos, contagem, sopro, …

ressignificância

quando, desbragadamente,
tu desprendias palavras
das pontas dos dedos,
quando, em qualquer tom,
a tua língua solta, ácida
- chama ardendo
acesa apascentando
teus demônios -,
rasgava o verbo, os recatos,
teu corpo inteiro transparente,
a cabeça e tuas extremidades
revelavam tudo o que hoje,
aparentemente protegido
sob uma armadura qualquer,
segue em guerra dentro de ti
(falava mais que o homi da cobra,
agora silêncio é escudo)

(im)permanência

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meu corpo, a minha voz
meus tropeços, tudo em mim
será até quando,
um somar anuários
- de carne e osso
sou sujeito a durar pouco
(o que vinga a existência,
acesso ao infinito, é pedra:
em silêncio impondo sua forma,
não murcha sob - ou sem - a água)


(imagem: Paul Bond)

panaceia

absorver máximas e cultivá-las
desenrijecer antigas estruturas
cá na Terra, vale até mesmo a fé
em um para-choque de caminhão
ou, se for ousar novos caminhos,
até trocar os pés pelas mãos
plantar bananeiras,
praticar infinitivos:
crer, infundir, buscar...
e, para nunca se arrepender
de não ter tentado, tentar.

como se tornar um cidadão de bem

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Bolsonaro é um espelho da ignorância humana

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Texto de André Nascimento Pontes,  professor de Lógica do Departamento  de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas

Bolsonaro é uma mentalidade

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por Juremir Machado

Não, Jair Bolsonaro não é um candidato como outro qualquer. É pior. Ele é um imaginário, uma mentalidade, uma visão de mundo. O seu método de leitura do que acontece na vida é a simplificação. Torna o complexo falsamente simples por meio de uma redução a zero dos fatores que adensam qualquer situação. Se há violência contra os cidadãos, que cada um receba armas para se defender. Se há impunidade, que a justiça seja sumária e sem muitos recursos. Se há bandidos nas ruas, que a polícia possa matá-los sem que as condições de cada morte sejam examinadas. Se há corrupção, que não se perca tempos com processos.
Bolsonaro encarna o pensamento do homem medíocre, o homem mediano que não assimila explicações baseadas em causas múltiplas. Se há miséria, a culpa é da preguiça dos miseráveis. Se há crime, a culpa é sempre da má índole. Se há manifestações, é por falta de ordem. A sua filosofia por excelência é o preconceito em tom de indignação moral, moralista. A sua solução ide…

pareidolia

assisto ao final desta manhã:
sob o mesmo céu
os mesmos galhos
dessas mesmas árvores
balançam as mesmas folhas
(presas à vida)
e enquanto um velho
que fala ao telefone
carregando rugas e sacolas
nas mãos
vai sem pressa
sei lá para onde
(uma cara de:
"Ivone, vou me atrasar
para o almoço"), penso:
nesta cidade do Sul
da América do Sul,
onde o velho e eu
dividimos o mesmo céu,
há um cavalo gigante
sobre as nossas cabeças
- sim, sou desses
que veem desenhos nas nuvens.