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dos achados e achismos

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Glauco Mattoso

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morei durante algum tempo em São Paulo e minha chegada na cidade coincidiu com o período em que uma editora de livros estava se organizando para inaugurar um centro cultural onde haveria uma livraria e também um grande espaço em que funcionaria uma galeria de arte. fui contratado para trabalhar nesse local, onde acabei ficando por um bom tempo. além de lançamentos de livros em um espaço da própria livraria, havia, também, uma grande sala onde aconteciam palestras e saraus literários. eu participava, quando era possível, de alguns desses encontros. tive a oportunidade, então, de conhecer vários escritores, poetas e artistas plásticos de muitas partes do Brasil. 
em um desses encontros, que geralmente aconteciam aos sábados, teríamos a participação do escritor e poeta Glauco Mattoso. eu não sabia muito sobre ele até então, sabia, por exemplo, da música "Língua", em que ele foi citado por Caetano Veloso, e, a partir disso, como uma porta de entrada, eu fui ler, muitos anos atr…

Hilda Hilst: "Cronista: filho de Cronos com Ishtar"

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Uma das coisas que eu mais admiro em alguém é o humor. Nada a ver com boçalidade. Alguns me pedem crônicas sérias. Gente... o que fui de séria nos meus textos nestes quarenta e três anos de escritora! Tão séria que o meu querido amigo, jornalista e crítico, José Castello, escreveu que eu provoco a fuga insana, isto é, o cara começa a me ler e sai correndo pro funil do infinito. Tão séria que provoco o pânico. E nestas crônicas o que eu menos desejo é provocar o pânico... Já pensaram, a cada segunda-feira, os leitores atirando o jornal pelos ares e ensandecendo? Já pensaram o que é isso de falar a sério e dizer por exemplo: que é isso, meu chapa, nós vamos todos morrer e apodrecer (ainda bem que não é apodrecer e depois morrer, o lá de cima foi bonzinho nesse pedaço), tu não é ninguém, meu chapa, tudo é transitório, a casa que cê pensa que é sua vai ser logo mais de alguém, tu é hóspede do tempo, negão, já pensou como vai ser o não-ser? Tá chateado por quê? Tu também vai envelhecer, f…

GAZETA DE POESIA INÉDITA

meu poema litosfera foi publicado na GAZETA DE POESIA INÉDITA, do poeta português José Pascoal (autor dos livros Sob Este Título, Antídotos e Excertos Incertos, todos publicados pela Editorial Minerva, de Lisboa). aos que ainda não conhecem a GAZETA e queiram conhecer, eis o endereço:

gazetadepoesiainedita.blogs.sapo.pt

alcoba azul

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La noche irá sin prisa
de nostalgia
Habrá de ser un tango
nuestra herida
Un acordeón sangriento
nuestras almas
Seremos esta noche
todo el día

Vuelve a mí
Ámame sin luz
En nuestra alcoba azul
Donde no hubo sol
para nosotros

Ciégame
Mata mi corazón
En nuestra alcoba azul
Mi Amor


voz: Lila Downs
letra: poeta mexicano Hernán Bravo Varela
música: Elliot Goldenthal



intento

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intento da língua
também é caber
dentro da boca
em que saliva

língua solta
só se for quieta
dentro da boca
que é outra

língua na outra
é recíproco
cabe no que diz
em silêncio

algumas línguas
preferem não
a minha língua
prefere assim:

calada no céu
de uma boca
que joga saliva
dentro de mim. 



(imagem: Schiele)

Pessoa. pessoas

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eis como deveria ter sido o discurso de Bolsonaro na Suíça

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céu. inferno. cagação de regras

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um dia desses um amigo me mostrou um vídeo em que um pastor em uma igreja (não sei qual) falava sobre "céu e inferno" citando como exemplos uma lésbica que ele conhecia, o "movimento LGBT" e os "crentes". segundo o tal pastor, a tal lésbica usava bermudas (como se bermudas fossem roupas que somente homens usassem ou deveriam usar), tinha o cabelo curto (como se somente homens tivessem ou pudessem ter os cabelos curtos), mas que "todo mês ela menstruava pra Deus mostrar pra ela que ela é mulher". ainda segundo o tal pastor, "criticar o 'movimento LGBT' dá processo, mas criticar os 'crentes' leva pro 'inferno'", como se ele estivesse sendo muito corajoso por estar naquela igreja fazendo esse tipo de "crítica" (como se preconceito fosse apenas "crítica") que nem todos têm coragem de fazer e ao mesmo tempo dando a entender que ele estaria "livre do inferno" por ser "crente".

Literatura & Fechadura

3 dos meus poemas foram publicados na revista digital Literatura & Fechadura. quem costuma visitar este blog já leu os poemas, mas para os que ainda não conhecem a revista e queiram conhecê-la, deixo aqui o link:
www.literaturaefechadura.com.br

luz do sol

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(sol e eu)
luz do sol
que a folha traga e traduz
em verde novo
em folha, em graça, em vida
em força, em luz
céu azul que vem
até onde os pés tocam a terra
e a terra inspira e exala seus azuis
reza, reza o rio
córrego pro rio e o rio pro mar
reza a correnteza
roça a beira, doura a areia
marcha o homem sobre o chão
leva no coração uma ferida acesa
dono do sim e do não
diante da visão
da infinita beleza
finda por ferir com a mão
essa delicadeza
a coisa mais querida
a glória da vida

luz do sol
que a folha traga e traduz
em verde novo
em folha, em graça, em vida
em força, em luz

(Caetano Veloso)




litosfera

dividimos em pensamentos
nosso mundo - conferindo-nos
asas que nos movem e raízes
que nos aprofundam
na realidade de uns solos
e uns sonhos, grandes
territórios não mapeados -
e desde há muito,
também, rente às retinas,
o peso avaliado das coisas:
rochas, vulcões, Américas,
indígenas, linhas de Nazca,
moais, Taj Mahal, castas,
ossos de dinossauros,
Mona Lisa sorrindo
atrás do vidro,
tectônicas placas
em movimento:
um planeta inteiro
- em camadas -
(n)a nossa percepção.

bumerangue

se o que eu escrevo
acaba te alcançando,
não é porque te miro:
é porque tu te miras
em mim e me erras
em ti acertando.

azul e rosa: "afinal, existe a tal 'ideologia de gênero'?"

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(nova era no Brasil:
meninos vestem azul,
meninas vestem rosa. e quanto aos cabelos e tênis azuis?)

Damares Alves, a "Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos" do governo de Boçalnaro, aquela que viu Jesus na goiabeira, disse que uma "nova era" começou no Brasil: "meninos vestem azul e meninas vestem rosa". Damares, tal qual o novo presidente do Brasil, é uma pessoa de mente "muito evoluída", com ideias "nada retrógradas", obviamente. Ela disse, depois da repercussão do caso, que estava fazendo apenas uma "metáfora contra a 'ideologia de gênero'", esse assunto tão em voga há algum tempo no Brasil e dias atrás também abordado pelo novo presidente que, em seu discurso ideológico de posse, disse que quer combater a "ideologia de gênero". Lembrei, por causa disso, de um texto (excelente) de Maíra Zapater, do site Justificando, escrito em 2015, mas que deveria ser lido, no momento atual, por todos, …

Amaité poesias & cia.

alguns dos meus poemas foram publicados no Amaité, blog da poeta, ficcionista e editora Jandira Zanchi, autora dos livros A Janela dos Ventos (Editora Singularidade, 2017), Área de Corte e Gume de Gueixa (Editora Patuá, 2016 e 2013) e Balão de Ensaio (Editora Protexto, 2007) e integrante do conselho editorial da revista virtual mallarmargens. para quem quiser conferir meus poemas lá no Amaité, e assim também conhecer o blog (para quem ainda não conhece, vale muito a pena!), deixo aqui o link: 
www.amaitepoesias.blogspot.com

2019

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essência

1 - se
fode
se
não
fode
se
come
se
não
come
a
moral
não
se
encontra
abaixo
da
cintura
entre
as
pernas

dizia
Elke
Maravilha
- perguntem
sobre
a
alma
das
pessoas.


2 - ninguém é unilateral: todos temos pelo menos dois lados: o mesmo do cu outro da buceta ou do pau mas ainda há um de dentro onde não cabe brasão  nem emblema rótulo etiqueta dístico teorema é lá que - antes de tudo - ninguém a ninguém é igual.

se fosse o inverso

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por Natasha Romanzoti - HypeScience
imagens Bored Panda

Imagine um universo paralelo onde os animais são as espécies dominantes e eles tratam a raça humana da forma como nós os tratamos agora. É um pensamento muito assustador, não? Pensamento, aliás, que foi ilustrado por diversos artistas em imagens chocantes. A lista abaixo foi compilada pelo site Bored Panda. O tema da série são ilustrações projetadas para nos fazer pensar de forma diferente sobre a maneira como lidamos com os animais. Nelas, os papéis são invertidos, e os seres humanos é que são o alvo de algumas das coisas mais horríveis que fazemos com nossos colegas de planeta Terra.




















zonadapalavra

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para todos os leitores deste blog que costumam enviar seus comentários, e também para aqueles atrás da moita que não se manifestam, mas igualmente têm interesse pelo conteúdo compartilhado por aqui, faço um convite (aos que ainda não conhecem) para que conheçam a "zonadapalavra", onde diversos poetas e escritores contribuem com os seus escritos (estou lá entre os "zonadores"). aos que fazem parte do Facebook, sugiro que procurem e, se quiserem, curtam a página da "zonadapalavra". deixo-lhes aqui o link para o blog:
www.zonadapalavra.wordpress.com
abraço para todos!

submersivo

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deixo-lhes aqui três vídeos da Anjali, atriz, escreve poemas e uma pessoa de humor e sensibilidade singulares, minha amiga mais antiga (da época em que algumas pessoas ainda se correspondiam através de cartas escritas à mão, costume que ela e eu mantivemos entre nós durante muito tempo). a gravação de "Baiae", o primeiro vídeo, foi feita por mim em uma das praias da minha cidade e na minha casa - texto de Anjali, edição de vídeo de Suelem Freitas e edição de áudio de Jefereson Vinod Garcia.

*

*

máxime

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(na Praia da Cal)

o mar já estava aqui antes de mim. sagrado é poder abrir os olhos - vejo apenas existência, transitoriedade, exuberância inata, intrínseca em mudanças incessantes. pertenço ao universo - capaz de bastar a si mesmo (quem diz crer em deus, mas não o vê no mar, não o verá em nenhum livro).

Estrela Ruiz Leminski e Téo Ruiz: "Filho de Santa Maria"

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Aqui tô eu pra te proteger
dos perigos da noite e do dia
Sou fogo, sou terra, sou água, sou gente
Eu também sou filho de Santa Maria

Se dona Maria soubesse
que o filho pecava
E pecava tão lindo
Pegava o pecado, deixava de lado
E fazia da Terra uma estrela sorrindo

Hoje eu saí lá fora
Como se tudo já tivesse havido
Já tivesse havido a guerra
A festa já tivesse havido
E eu fosse puro espírito


(Paulo Leminski)

É no ínfimo que eu vejo a exuberância

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Mosca dependurada na beira de um ralo -
Acho mais importante do que uma joia pendente.

Os pequenos invólucros para múmias de passarinhos
que os antigos egípcios faziam
Acho mais importante do que o sarcófago de Tutancâmon.

O homem que deixou a vida por se sentir um esgoto -
Acho mais importante do que uma Usina Nuclear.
Aliás, o cu de uma formiga é também muito mais importante
do que uma Usina Nuclear.

As coisas que não têm dimensões são muito importantes.
Assim, o pássaro tu-you-you é mais importante por seus pronomes
do que por seu tamanho de crescer.

É no ínfimo que eu vejo a exuberância.


Manoel de Barros.
Poesia completa - São Paulo: LeYa, 2013.


(imagem: Raul Branco)

coração

sobre o lado
esquerdo
do peito,
não tem jeito:
escrevem por aí
a torto e a direito.

azulcinação

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pelos céus
pelos oceanos
água-viva da lua
cirurgião-patela
(Dory a nadar)
pinguim-fada
gaio e garça
ararinha: azul
em extinção
que também voa

Yves Klein (cor
patenteada):
1001 balões
de gás hélio
no céu de Paris
e antropometria
- azul calcinha sem

Picasso, um período

ciano e magenta
em sobreposição
= casa da Frida
Kahlo: cobalto

cerúleo
cárdeo
celeste

safira
azurita
tanzanita
chacantita
labradorita
água-marinha:
tons endurecidos

no espaço
Netuno, Urano
Terra - água
transparente
do alto é azul

na maior parte
das bandeiras
dos países
sul-americanos

e o mar
pouco
a pouco
engolindo
Tuvalu
e Kiribati

enquanto
isso, no Brasil
Roberto Carlos
melosamente
ainda canta
os detalhes
tão pequenos
de nós dois.



(imagem: Yves Klein)

Manchinha

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O caso da cadela Manchinha, que morreu depois de ter sido envenenada e cruelmente agredida com uma barra de metal por um segurança (asqueroso) do supermercado Carrefour, em Osasco (SP), ganhou enorme repercussão nacional. Eu fiquei dilacerado quando soube do caso, ainda mais depois que vi as fotos, essa em que ela ainda estava viva e aparentemente bem, linda com as patinhas cruzadas e olhando fixamente para a câmera de quem a fotografou, e outra em que ela estava envolta em sangue, uma imagem horrível. Fui pesquisar mais sobre o caso e descobri que esse não é um caso isolado, há um histórico de mortes de animais nas unidades do Carrefour e até mesmo um caso grave de racismo contra um homem negro ocorrido há alguns anos, na mesma unidade em Osasco, quando ele foi espancado por seguranças no estacionamento acusado de roubar o próprio carro, felizmente um tempo depois ele recebeu indenização da empresa. Mas a cadela Manchinha não teve a mesma sorte de poder seguir viva, assim como os ou…

horizontes II

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cor da linha do horizonte
onde áfricas escondem-se,
não vejo a tez: rosa, preta
laranja, amarela
são só talvez
(à espera
de alumbramentos,
eu canto, eu canto
porque o instante existe)

sobre as dúvidas

há certezas que enferrujam
as juntas, são mal-humoradas,
sofrem de dores lombares.
quem pensa estar sempre certo,
está equivocado
(não vai além das bordas)
prefiro amolecer as dobras
transbordando dúvidas
e com perguntas expandir a alma
para que nela caiba mais mundo.

no jornal Zero Hora

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mais um poema meu foi publicado no jornal Zero Hora (quarta-feira, dia 5),
dessa vez o poema "dos devires":


nada é.  tudo está.  as chagas, as árvores,  as fachadas das casas,  das igrejas,  os lençóis sujos dos puteiros,  a saliva dos monges,  as línguas bifurcadas das cobras,  dos seres vivos à matéria inorgânica,  tudo denuncia a passagem do tempo: existir é transmutar.

um naco de simplicidade

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benditos os que fazem
o almoço de domingo
enquanto cantam, dançam
e riem de si mesmos
ouvindo qualquer estação
mais popular de rádio,
os que nem estão pensando
em dizer nada de mais,
nada de muito eloquente,
nada de grandiloquente,
nada de impressionante,
apenas sentindo o cheiro
da cebola fritando no óleo
enquanto o cachorro e o gato
correm da sala para a rua.

benditos os que
nem se pensam poetas
- ou não se sabem -,
mas que veem poesia
onde quase ninguém
mais consegue,
olham além da janela
enquanto cozinham
e percebem que o sol
não é apenas
uma bola amarela no céu,
notam sempre todos
os desenhos feitos
por todas as nuvens
e não perdem a capacidade
de serem surpreendidos por elas
porque não estão olhando somente
para dentro de si mesmos
- transparentes para que não tenham
com o que lhes manchem, vivem.


(imagem: JMW Turner)

coexistência

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não tenho classe.
não tenho
bons modos.
não vim para ser
complacente
a qualquer custo.
não sou água
com açúcar.
não sou indireto.
não tenho medo
do que quer dizer
aquilo que digo.
não me meço
por números,
diplomas,
curtidas,
cédulas.
não valho,
para mim,
o que eu tenho,
eu sou, para mim,
o que eu sou.
não sou um autômato.
não sou cidadão de bem,
admito que erro também.
entre a matéria
e o impalpável,
a convivência
é uma arte
- e a arte também
é indômita, espinhosa.
não sou unilateral.
assumo minhas sombras:
em cada um de nós
brilha um sol por dentro
e há também o escuro
sombrio das madrugadas.


(imagem: Alberto Guignard)



gris

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de repente o céu acinzentou
como noite que chega
antes da hora
- como volta e meia
as lembranças
que esquecemos
ressurgem
mudando a cor
do dia em nós dentro

(hoje, um teto gris
de nuvens traz a cor
de uma tarde
lá pelos idos
de 1900 e guaraná
com rolha)

é chuva sobre a cidade,
passageira,
noite de mentira
que não rende estrelas

(eu vendo fora e dentro:
lá em cima
um faz de conta
da natureza,
aqui dentro
anos passando
sob o lado oculto
das retinas)

estrelas quando acendem
lembram-me
que só com elas
a noite é verdadeira.
observo.
absorvo.
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"Jesus é 'dahora', o que fode é o fã-clube."
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"Escarrar de um abismo noutro abismo,
Mandando ao céu o fumo de um cigarro
Há mais filosofia neste escarro
Do que em toda a moral do cristianismo!"

Augusto dos Anjos


(imagem: eu por Andrisa Rodrigues)

Wislawa Szymborska: "Tem aqueles que"

Tem aqueles que executam a vida de modo eficaz,
põem ordem em si mesmos e ao seu redor.
Têm resposta correta e jeito para tudo.

Adivinham logo quem a quem, quem com quem,
com que objetivo, por onde.

Batem o carimbo nas verdades únicas,
colocam no triturador os fatos desnecessários,
e as pessoas desconhecidas
em fichários de antemão destinados a elas.

Pensam só o quanto vale a pena,
nem um instante mais,
pois detrás desse instante espreita a dúvida.

E quando recebem dispensa da existência,
deixam o posto
pela porta indicada.

Às vezes os invejo
- por sorte isso passa.


in Um Amor Feliz,
tradução de Regina Przybycien,
Companhia das Letras, São Paulo, 2016.

Adriana Calcanhotto: "Calor"

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tarde turquesa
quarenta graus
talvez porque você não esteja
tudo lateja
tarde sem nuvem
cinquenta graus
talvez por sua ausência
tudo derreta
noite sem ninguém
nada se mexe
eu sonho nosso amor a sério
e você em outro hemisfério
enquanto tudo derrete
enquanto tudo derrete
enquanto tudo parece
derreter

"there's a natural mystic blowing through the air..."

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(da janela do meu quarto)

inefável

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sem palavra mascarada,
frase feita, falso nacarado
fora de hora sobre a língua
colocado, pelo chão,
sobre o tapete,
patas, bigodes,
manchas pretas.
qual conchas
no fundo do mar,
poesia não apenas
dentro de poemas,
o silêncio
do meu cachorro,
ou o instante de latido
- com nexo -,
produz pérolas.

Ó

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"Sem conseguir escolher se a vida é bênção ou matéria estúpida, examinar então, pacientemente, algumas pedras, organismos secos, passas, catarros, pegadas de animais antigos, desenhos que vejo nas nuvens, cifras, letras de fumaça, rima feita de bosta, imensidão aprisionada numa cerca, besouros dentro do ouvido, fosforescência do organismo, batimento cardíaco comum a vários bichos, órgãos entranhados na matéria inerte, olhando a um só tempo do alto e de dentro para o enorme palco, como quem quer escolher e não consegue: matéria ou linguagem?" (p. 18)